Sem ações relacionadas a terras, poder de negociação, compartilhamento de riscos e preços, a Agritech não será suficiente para transformar de forma sustentável o cotidiano dos pequenos agricultores. É o que aponta o relatório redigido por Belal Jahjooh e publicado pela ICT Work, intitulado "Nascer pobre, morrer pobre: Quebrando as armadilhas econômicas dos pequenos agricultores".
Uma observação corroborada pelos fatos, já que a mera disseminação de aplicativos móveis e plataformas digitais em ambiente rural não foi suficiente para reduzir a precariedade das famílias agrícolas.
A magnitude dos desafios rurais
Para compreender os desafios do setor, convém recordar a realidade global das comunidades rurais. Os pequenos agricultores produzem cerca de um terço dos alimentos mundiais, mas captam geralmente menos de 10 % do valor final na maioria das cadeias de suprimento internacionais.
Para o cacau, por exemplo, os produtores que cultivam as amêndoas recebem uma parcela mínima do preço final de uma barra de chocolate, sendo a maior parte do valor captada pelas etapas de transformação e comercialização internacional.
Além disso, o setor agrícola sofre com um déficit de financiamento estrutural. A necessidade anual de financiamento dos pequenos agricultores eleva-se a 170 bilhões USD em escala global, enquanto o setor bancário tradicional cobre apenas 2 a 3 % dessa demanda.
As mulheres, que fornecem 43 % da força de trabalho agrícola, possuem menos de 15 % das terras rurais, e o setor capta apenas menos de 1 % dos financiamentos internacionais dedicados ao clima.
Tecnologias isoladas
Nesse contexto, a euforia em torno das tecnologias agrícolas digitais (Agritech) parece, por vezes, superestimada. Segundo o relatório, as soluções digitais implantadas de forma isolada não constituem panaceias.
Se os aplicativos meteorológicos, o uso de drones ou a rastreabilidade melhoram o acesso à informação, o documento ressalta que essas inovações devem imperativamente vir acompanhadas de uma consideração das realidades econômicas e dos mecanismos de mercado.
Um aplicativo móvel não pode, por si só, reequilibrar a formação dos preços ou reger o acesso aos mercados internacionais. Portanto, a integração de ferramentas tecnológicas em um ambiente econômico não estruturado corre o risco de reproduzir, sob um formato digital, os desequilíbrios existentes.
Fatores de exclusão digital
Outro obstáculo reside no acesso desigual às tecnologias. O estudo indica que a adoção de soluções Agritech beneficia principalmente os agricultores de porte médio ou estruturados.
Os menores produtores enfrentam o custo dos equipamentos, a cobertura de rede por vezes limitada e os desafios da alfabetização digital.
Sem acompanhamento direcionado, a digitalização corre o risco de acentuar as disparidades no interior das comunidades rurais ao isolar os produtores mais vulneráveis. O documento lembra, assim, que a maioria das explorações familiares africanas evolui, primeiramente, diante de restrições materiais e logísticas básicas.
Informação sem alavanca de ação
A divulgação dos preços de mercado pela SMS ilustra esse limite. Transmitir a um agricultor o preço indicativo ou oficial das colheitas não é suficiente para melhorar seus rendimentos se este não dispuser de capacidades de arbitragem, insiste o relatório.
De fato, quando um produtor precisa escoar rapidamente sua colheita por falta de infraestruturas de armazenamento ou para fazer frente a encargos imediatos, o simples conhecimento do preço não lhe confere qualquer poder de negociação.
Como ressalta Belal Jahjooh, o conhecimento dos preços de mercado permanece ineficaz sem acesso a meios de transporte adequados, armazéns seguros e soluções financeiras adaptadas. A informação digital esbarra, assim, nas restrições materiais da cadeia logística.
Balanço dos mercados virtuais
A análise das plataformas de comercialização eletrônica confirma essas observações. Iniciativas como o mercado agrícola digital indiano e-NAM mostram que a digitalização pode aumentar a transparência e diversificar a rede de compradores.
No entanto, os resultados permanecem dependentes do ambiente físico. Nas zonas que carecem de infraestruturas rodoviárias ou centros de acondicionamento, as plataformas virtuais têm um impacto limitado no cotidiano dos produtores.
Além disso, se essas ferramentas se limitam a digitalizar os circuitos tradicionais sem reorganizar a cadeia de valor, os intermediários conservam a maior parte das margens.
Necessidade de ancoragens estruturantes
O relatório conclui que o digital deve estar inserido no quadro de políticas públicas e reformas econômicas concretas. A tecnologia só desdobra seu potencial quando se apoia em instituições rurais fortalecidas.
Isso exige o reforço das cooperativas agrícolas para favorecer o agrupamento da oferta, a segurança dos dire
